Sim, pode acontecer.
E para motel isso faz sentido por um motivo simples: o motel não funciona só no horário comercial. Se a atividade acontece à noite, a fiscalização pode precisar ver como o serviço realmente funciona à noite.
Não adianta olhar o motel às 10h da manhã, vazio, cheiroso, com as suítes já arrumadas, se a denúncia diz que o problema acontece às 2h da madrugada, quando há troca rápida de suíte, alta rotatividade, room service funcionando, lavanderia em uso e equipe reduzida.
A Vigilância Sanitária não fiscaliza apenas o prédio. Ela fiscaliza o serviço funcionando.
Imagine a cena.
São 1h40 da manhã. A recepção está operando, as suítes estão girando, uma camareira acabou de liberar um quarto, a cozinha ainda prepara lanches, o lixo do turno está acumulado e uma hidromassagem acabou de ser esvaziada.
É nesse momento que muita coisa aparece.
O fiscal pode querer verificar, por exemplo:
- como a suíte é higienizada entre um cliente e outro;
- se a roupa de cama usada está separada da limpa;
- se há produto de limpeza adequado e identificado;
- se a hidromassagem é limpa de verdade ou apenas “passam uma água”;
- se há mofo, infiltração, odor forte ou retorno de esgoto;
- se a cozinha do room service mantém alimentos em temperatura segura;
- se a área de lixo está atraindo insetos ou roedores;
- se a equipe sabe o que fazer sem depender do dono chegar.
Esse é o ponto que o empresário precisa entender: o horário da fiscalização acompanha o risco da atividade.
Se o motel vende hospedagem durante a madrugada, serve comida durante a madrugada e libera suíte durante a madrugada, a Vigilância Sanitária pode ter motivo para fiscalizar durante a madrugada.
A base geral da Vigilância Sanitária é atuar para eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde, inclusive no controle de serviços que se relacionam direta ou indiretamente com a saúde. A Lei nº 8.080/1990 define essa lógica de atuação dentro do SUS, e a Lei nº 9.782/1999 organiza o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, incluindo controle e fiscalização de produtos e serviços de interesse para a saúde.
Mas o fiscal pode entrar em qualquer lugar do motel?
Não é bagunça.
A fiscalização precisa respeitar limites legais e constitucionais. A própria Prefeitura de São Paulo, por exemplo, descreve a autoridade sanitária como servidor com livre acesso aos locais sujeitos à legislação sanitária, mas observados os preceitos constitucionais.
Na prática, isso significa uma diferença importante:
Suíte ocupada por cliente é uma coisa. Suíte desocupada, área de limpeza, lavanderia, cozinha, depósito e recepção são outra.
O fiscal normalmente não precisa invadir a privacidade de um casal dentro da suíte para verificar as condições sanitárias do motel. O caminho mais comum é solicitar uma suíte vazia, uma suíte recém-liberada ou uma unidade retirada de uso para verificar limpeza, conservação, banheiro, colchão, roupa de cama, hidromassagem, ventilação, mofo e estrutura.
Agora, cozinha, lavanderia, depósito de produtos de limpeza, área de resíduos, recepção, corredores técnicos e áreas operacionais são setores ligados diretamente ao funcionamento do negócio. Se estão em uso durante a madrugada, podem entrar na inspeção.Quando uma fiscalização de madrugada é mais provável?
Não é o cenário mais comum para toda fiscalização, mas pode acontecer principalmente quando existe motivo concreto.
Por exemplo:
1. Denúncia sobre algo que acontece à noite
Um cliente reclama que recebeu uma suíte sem limpeza adequada às 3h da manhã. Ou diz que a hidromassagem estava com sujeira, odor forte ou água estranha. Nesse caso, faz sentido a fiscalização olhar a rotina no horário em que o problema aparece.
2. Motel funcionando 24 horas
Se o estabelecimento está aberto, com entrada e saída de clientes, equipe trabalhando e serviço sendo vendido, não existe aquela ideia de “agora não é horário de fiscalização”. Para uma atividade 24 horas, a madrugada também é horário de funcionamento.
3. Room service ou cozinha operando à noite
Se o motel serve comida durante a madrugada, a Vigilância pode observar armazenamento, validade, temperatura, manipulação, geladeiras, freezers e higiene da área de preparo. A RDC nº 216/2004 é a principal referência federal de Boas Práticas para Serviços de Alimentação.
4. Operações conjuntas
Às vezes, a fiscalização não vem sozinha. Pode haver ação com Polícia Civil, Polícia Militar, Ministério Público, Procon, Corpo de Bombeiros, fiscalização municipal ou outros órgãos.
Isso não acontece porque “todo motel é suspeito”. Acontece quando o caso ultrapassa a inspeção sanitária comum.
Pode envolver denúncia grave, investigação criminal, segurança da equipe, cumprimento de mandado, funcionamento irregular, suspeita de outros ilícitos ou operação de vários órgãos ao mesmo tempo. Em Ubatuba, por exemplo, uma operação com Polícia Civil, Polícia Militar, Vigilância Sanitária e GCM apurou denúncias e funcionamento irregular de estabelecimentos; a Polícia Civil coordenou entradas em locais e houve cumprimento de mandados judiciais.
Também há códigos sanitários municipais que preveem livre acesso da autoridade sanitária “a qualquer dia e hora” quando necessário ao exercício do poder de polícia, podendo solicitar força policial quando preciso. O Código Sanitário de Paragominas/PA traz essa previsão de forma expressa, inclusive com livre acesso em qualquer dia e hora e possibilidade de solicitar força policial.
O que o dono do motel deve fazer se a Vigilância chegar de madrugada?
Primeiro: não transforme a fiscalização em confronto.
Peça a identificação funcional, acompanhe a inspeção, chame o gerente responsável, separe uma suíte desocupada para vistoria, organize os documentos disponíveis e registre tudo o que for entregue, apontado ou solicitado.
O erro é deixar a recepção improvisar.
A cena que costuma prejudicar o empresário é esta: fiscal na porta, recepcionista nervoso, ninguém sabe onde está a documentação, camareira dizendo “a gente sempre fez assim”, cozinha funcionando sem responsável e gerente dizendo pelo telefone: “fala que eu chego amanhã”.
Isso passa uma imagem péssima.
Motel 24 horas precisa ter rotina 24 horas. Não basta o dono saber como funciona. A equipe da madrugada também precisa saber.
A fiscalização de madrugada pode gerar multa ou interdição?
Pode, se forem encontradas irregularidades.
A Anvisa diferencia medidas preventivas, cautelares e penalidades. Entre as ações possíveis estão apreensão, suspensão, interdição de produtos ou estabelecimentos, advertência, multa, interdição parcial ou total e cancelamento de alvará, conforme o caso e o processo aplicável.
Mas a lógica continua sendo a mesma: o fiscal olha o risco.
Se o problema está em uma suíte específica, a medida pode atingir aquela suíte.
Se o problema está na cozinha, pode atingir o serviço de alimentação.
Se o problema está na água, no esgoto, na lavanderia que atende todas as suítes ou em uma infestação generalizada, o risco pode alcançar o motel inteiro.
Por isso, a pergunta real não é apenas:“A Vigilância Sanitária pode aparecer de madrugada?”
A pergunta que o empresário deveria fazer é:“Se a Vigilância aparecer às 2h da manhã, minha operação continua defensável?”
Porque é aí que se separa motel organizado de motel que só parece regular quando o dono está presente.
Referências bibliográficas
- BRASIL. Lei nº 8.080/1990 – Define as ações de Vigilância Sanitária no âmbito do SUS.
- BRASIL. Lei nº 9.782/1999 – Define o Sistema Nacional de Vigilância Sanitária.
- BRASIL. Lei nº 6.437/1977 – Configura infrações à legislação sanitária federal e estabelece sanções.
- ANVISA. RDC nº 216/2004 – Regulamento Técnico de Boas Práticas para Serviços de Alimentação.
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